Bruno nunca contou sobre a Marginal. Mas naquela noite, antes de dormir, ouviu o ronco distante de outra moto acelerando na avenida. E, pela primeira vez, não sentiu inveja. Sentiu alívio por não estar mais lá.

Um táxi fechou a passagem na altura do Carrefour. Sem pensar, Bruno enfiou a moto no corredor entre o táxi e uma carreta. Menos de dois centímetros de cada lado. A fúria sussurrou: “Você não é ninguém. Prova que é alguém.” Ele provou.

A chuva começou a engrossar. O asfalto escuro refletia os faróis como uma lâmina molhada. Bruno, porém, não reduziu. A traseira da moto dançou numa mancha de óleo; ele corrigiu no instinto, o coração nem acelerou. A fúria anestesiava o medo.

O asfalto da Marginal Tietê reluzia sob a garoa fina de maio. Para Bruno, não era apenas uma via expressa; era uma arena. E sua arma era uma moto – uma Titan 150 escura, com o escapamento roncando um aviso grave.

Quando chegou, Marina estava na varanda, o rosto iluminado pelo celular. Ele subiu, abraçou-a por trás e sussurrou: “Vou dar um jeito. No aluguel. No trabalho. Tudo.”

Foi então que viu o Fiesta prata.

Na primeira ultrapassagem, cortou um Gol quadrado pela direita, raspando o retrovisor. O motorista buzinou. Bruno ignorou. A velocidade subiu para oitenta, noventa, cem – dentro da cidade, um absurdo. O vento não refrescava; alimentava. A cada giro do acelerador, ele deixava para trás um pedaço da humilhação.